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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram o que mesmo?

Por Ruy Marinho

Um texto bíblico muito bonito que é utilizado por muita gente, tanto em músicas, quanto em pregações está na 1ª carta aos Coríntios 2:9 “mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.”

Geralmente, a interpretação desse versículo é direcionada ao céu, às bênçãos vindouras na eternidade. Alguns neopentecostais adeptos da teologia da prosperidade conseguem ir mais além, afirmando com base nesse versículo que devemos “sonhar” com coisas materiais que jamais sonhamos, pois seria o que Deus preparou para aqueles que o amam.

Embora sabemos que, de fato, Deus preparou a eternidade como algo indescritivelmente maravilhoso para os eleitos, informo àqueles que utilizam este versículo bíblico para compor as suas músicas e pregações que, não é isso que o texto afirma! Analisando o contexto, descobrimos alguns pontos importantes, dos quais nos levarão ao verdadeiro sentido do versículo 9.

Em primeiro lugar, o versículo imediato indica que “o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” já foi relevado! “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (vs 10, negrito meu). Através do Espírito Santo, temos conhecimento de algo que outrora estava oculto e que agora fora revelado, o que refuta a ideia de ser algo referente ao céu ou algo material que virá a existência. O que é então este conhecimento revelado? Para chegar a resposta, devemos analisar todo o contexto da passagem para entender o que o autor do texto, o Apóstolo Paulo, quis dizer. Portanto, vamos voltar até o verso 1º e analisar até o 8º:

“Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.” (2Co 2:1-8, negrito meu)

Lendo atentamente o contexto, notamos que Paulo está fazendo um contraste entre duas sabedorias: a humana e a de Deus. Quando Paulo pregou o evangelho aos coríntios pessoalmente, ele sabia de um grave problema que estava acontecendo nessa igreja. Havia divisões causadas por conta do culto a personalidades (1Co 1:10-13). Os membros da igreja em Corinto antes de se converterem eram pagãos e amavam a filosofia da época. Eles seguiam a tradição da cidade em ouvir os grandes mestres filósofos que ficavam em praça pública fazendo discursos bonitos, usando frases bem construídas e retóricas elaboradas com bastante eloquência para emocionar a população. Em troca, eles recebiam dinheiro dos ouvintes. Os habitantes de Corinto tinham um interesse doentio em adquirir sabedoria e estavam acostumados a valorizar as pessoas pela capacidade intelectual. Quando eles vieram para a igreja, trouxeram essa prática mundana e as pessoas estavam transferindo aos pregadores cristãos a mesma admiração que eles tinham pelos grandes filósofos da época, ou seja, um verdadeiro culto à personalidade, algo que na igreja é inadmissível e incompatível com a mensagem da Cruz.

Consciente de que a base da fé cristã não se baseia em argumentos filosóficos, Paulo não utilizou a sabedoria humana (leia-se filosofia da época, retórica com o objetivo de impressionar), mas sim o poder de Deus através do evangelho. Apesar de o Apóstolo ter sido uma pessoa culta, com três cidadanias e grande conhecedor da literatura e filosofia da época (At 17:17 e 28, 19:8, Tt 1:12 etc.), ele sabia que se usasse a sua sabedoria para persuadi-los sobre o evangelho, com certeza os coríntios se apoiariam nisso e fariam também um grande “fã-clube” paulino. Por isso, sua mensagem aos coríntios foi exclusivamente a pregação do evangelho da Cruz.

Esta sabedoria de Deus que é Jesus Cristo só pode ser compreendida através da iluminação do Espírito Santo. Ela não pode ser percebida pelo mundo, caso contrário, não teriam crucificado a Cristo (vs 8). Por isso, quem provoca divisões por cultuar personalidades é porque não é espiritual, mas carnal, considerado criança em Cristo (1Co 3:1-9), pois não compreendeu o mistério do evangelho da Cruz. A palavra “mistério” no N.T. grego (mysterion) traz o sentido de algo que está sendo revelado. Deus se revela aos que d’Ele se aproximam em Cristo. O conhecimento de Deus é misterioso no sentido de que o homem natural, agindo por suas próprias faculdades, não pode recebê-lo[1]. Somente os eleitos de Deus possuem esse entendimento (Mc 4:11, Rm 11:25, Cl 1:26), quem tem o Espírito, tem este mistério revelado em seu coração!

É este o raciocínio de Paulo dentro do contexto. A sabedoria de Deus em mistério que o apóstolo está falando (vs 7) é exatamente o evangelho que estava oculto desde a eternidade e fora revelado através do Espírito Santo. No verso 9, “o que Deus preparou para aqueles que o amam” é a obra da salvação através de Jesus Cristo, são as riquezas do evangelho. No contexto amplo sobre o assunto, encontramos em Efésios 3:8-9 outra afirmação do apóstolo Paulo sobre esta verdade: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas” (negrito meu).

Após esta análise, percebemos o perigo de interpretar a Bíblia de forma alegórica, extrair algo que o texto em si não diz é um erro grave! Não podemos ir além do que está escrito e devemos sempre condicionar a leitura da Bíblia dentro do contexto da passagem, é o texto bíblico que deve nos dar o sentido da leitura e não o contrário. Somente assim, compreenderemos corretamente o que o autor quis dizer, podendo então aplicar a passagem bíblica para nós em sua exata significância.

Caro leitor, quando você ouvir novamente alguém cantar ou pregar que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram”, procure analisar se tal citação está dentro do contexto bíblico correto. Aos compositores musicais, vale ressaltar a importância da análise teológica de suas letras. Da mesma forma, os pregadores devem ter o mesmo cuidado. Para estes, é altamente recomendável à pregação da Palavra de Deus de forma expositiva, pois a mesma não permite que o pregador vá além do que está escrito, protegendo o texto bíblico de alegorias isoladas, além de expor a mensagem bíblica de forma correta e literal [2]. Como Calvino afirmou certa vez: “O verdadeiro significado das Escrituras é aquele que é natural e óbvio” [3].

Sola Scriptura!
Ruy Marinho
Fonte: www.napec.org

Notas

[1] O Novo Comentário da Bíblia, F. Davidson. Ed. Vida Nova, pág.1195.

[2] Para saber mais sobre a pregação expositiva, veja uma seleção de excelentes artigos aqui!

[3] Citado em: A arte expositiva de João Calvino – Steven J. Lawson. Editora Fiel, 2008, p. 72, de: PARKER, T.H.L. Calvin’s New Testament Commentaries. Grand Rapids, Ml:Eerdmans publishing Co, 1971. p.50.


Momentos de Reflexão

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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Legalize já! A legalização da maconha é um bom negócio?

"Legalize já, legalize já, porque uma erva natural não pode te prejudicar" - diz o refrão da música Legalize já da extinta banda Planet Hemp do rapper Marcelo D2. Mas será?

Noutro trecho dizem: "Já está provado cientificamente do verdadeiro poder que ela exerce sobre a mente". Bem, é sobre isso de que se trata esta postagem.

Uma recente pesquisa divulgada nos Estados Unidos pelo Public Religion Research Institute, declarou que a maioria dos jovens cristãos apoiam a legalização da maconha (leia aqui).

Gostaria de acreditar que uma pesquisa entre os jovens cristãos da nossa nação revelaria uma verdade bem diferente!

Aos que defendem que o uso da maconha não traz graves consequências ao organismo, eu gostaria de compartilhar a reportagem de Adriana Dias Lopes publicada na Revista Veja de novembro de 2012 – Maconha faz mal, sim. Quem afirma é a Medicina – que traz, além de tudo, ótimos argumentos para a NÃO legalização da maconha.

Por: Adriana Dias Lopes
Título original: Maconha faz mal, sim. Quem afirma é a Medicina

MACONHA FAZ MAL, SIM

O atual liberalismo em torno do consumo da droga está em descompasso com as pesquisas médicas mais recentes. As sequelas cerebrais são duradouras, sobretudo quando o uso se dá na adolescência.


Hoje ainda, até o fim do dia, 1 milhão de brasileiros terão fumado maconha. A maioria dessas pessoas está plenamente convencida de que a droga não faz mal. Elas conseguem trabalhar, estudar, namorar, dirigir, ler um livro, cuidar dos filhos…

A folha seca e as flores de Cannabis são consumidas agora com uma naturalidade tal que nem parece ser um comportamento definido como crime pela lei penal brasileira. O aroma penetrante inconfundível permeia o ar nas baladas, nas áreas de lazer dos condomínios fechados, nos carros, nas imediações das escolas.

A maconha, que em outros tempos já foi chamada de “erva maldita”, agora ganhou uma aura inocente de produto orgânico e muitos de seus usuários acendem os “baseados” como se isso fosse parte de um ritual de comunhão com a natureza, uma militância espiritual de sintonia com o cosmo.

Tolerância cada vez maior com o consumo

Há uma gigantesca onda de tolerância com esse vício. Nos Estados Unidos, dezessete Estados já regulamentaram seu uso medicinal. No dia 6 passado, os Estados de Washington e Colorado realizaram plebiscitos sobre a legalização e o eleitorado aprovou. No Uruguai, o presidente José Mujica pretende estatizar a produção e a distribuição da droga.

Em maio deste ano, no Brasil, sob o argumento do direito à liberdade de expressão, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a marcha da maconha – desde, é claro, que ela não fosse consumida pelos manifestantes.

Em um de seus shows, em janeiro, Rita Lee causou tumulto ao interromper a apresentação em Sergipe para interpelar os policiais que tentavam reprimir o fumacê na plateia: “Este show é meu. Não é de vocês. Por que isso? Não pode ser por causa de um baseadinho. Cadê um baseadinho pra eu fumar aqui?”.

Na contramão da liberalidade oficial, legal e até social com o uso da maconha, a ciência médica vem produzindo provas cada dia mais eloquentes de que a fumaça da maconha faz muito mal para a saúde do usuário crônico – quem fuma no mínimo um cigarro por semana durante um ano.

Não faz menos mal do que álcool ou cigarro

Fumar na adolescência, então, é um hábito que pode ter consequências funestas para o resto da vida da pessoa. Aqueles cartazes das marchas que afirmam que “maconha faz menos mal do que álcool e cigarro” são fruto de percepções disseminadas por usuários, e não o resultado de pesquisas científicas incontrastáveis.

Maconha não faz menos mal do que álcool ou cigarro. Cada um desses vícios agride o organismo a sua maneira, mas, ao contrário do que ocorre com a maconha, ninguém sai em passeata defendendo o alcoolismo ou o tabagismo.

Diz um dos mais respeitados estudiosos do assunto, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo: “Encarar o uso da maconha com leniência é uma tese equivocada, arcaica e perigosa”.
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Alguns dos argumentos para a legalização da maconha têm uma lógica perfeita apenas na aparência. Os defensores da legalização alegam que, vendida legalmente, a maconha também seria cultivada dentro da lei e industrializada. A oferta aumentaria e os preços cairiam. Isso tornaria inúteis os traficantes. Eles sumiriam do mapa, levando consigo todo o imenso colar de roubos, assassinatos e corrupção policial que a repressão à maconha provoca.

Estudo acompanhou 1.000 voluntários por 25 anos

O argumento não resiste ao mais simples teste de realidade embutido na pergunta: “Quem disse que traficante vende só maconha?”. Se a maconha fosse liberada, o tráfico de cocaína, heroína e crack continuaria e todos os problemas sociais decorrentes do poder desse submundo ficariam intactos. Acrescente-se à equação o fato de que a maconha efetivamente faz mal à saúde, e a lógica dos defensores de sua legalização evapora-se no ar ainda mais rapidamente.

Um dos estudos mais impactantes e recentes sobre os males da maconha foi conduzido por treze reputadas instituições de pesquisa, entre elas as universidade Duke, nos Estados Unidos, e de Otago, na Nova Zelândia. Os pesquisadores acompanharam 1.000 voluntários durante 25 anos. Eles começaram a ser estudados aos 13 anos de idade.

Queda no desempenho intelectual, na memória, na concentração

Um grupo era composto de fumantes regulares de maconha. Os integrantes do outro grupo não fumavam. Quando os grupos foram comparados, ficou evidente o dano à saúde dos adolescentes usuários de maconha que mantiveram o hábito até a idade adulta. Os fumantes tiveram uma queda significativa no desempenho intelectual.

Na média, os consumidores crônicos de maconha ficavam 8 pontos abaixo dos não fumantes nos testes de Q.I. Os usuários de maconha saíram-se mal também nos testes de memória, concentração e raciocínio rápido.

Os resultados mostram que é falaciosa a tese de que fumar maconha com frequência não compromete a cognição. Diz o psiquiatra Laranjeira: “Se o usuário crônico acha que está bem, a ciência mostra que ele poderia estar muito melhor sem a droga. A maconha priva a pessoa de atingir todo o potencial de sua capacidade”.

O cineasta paulistano Álvaro Zunckeller, de 32 anos, fumou maconha durante duas décadas, desde a adolescência, com os amigos, na roda do bar e na saída da escola. No início, era um cigarro a cada duas semanas. Chegou a três por dia. “Era um viciado, mas para a maioria das pessoas eu era um sujeito sossegado, apenas um pouco desatento”, conta ele.

Zunckeller é um caso típico da brasa dormida dos danos da maconha ao cérebro confundidos com um comportamento ameno e um estilo de vida mais contemplativo.

UMA VIDA NORMAL NA APARÊNCIA

"Fumei maconha durante vinte anos. Experimentei na adolescência e adorei. Em três anos, passei de um cigarro a cada duas semanas para três baseados por dia.

Foram vinte anos de perdas. Perdi um emprego, perdi duas namoradas e me formei com dez anos de atraso. Na faculdade, só pensava na hora de ir para o barzinho fumar maconha. Quando estava em casa, passava o dia dormindo. Era um viciado, mas levava uma vida relativamente normal. Esse é o grande perigo da maconha. Há sete meses comecei um tratamento clínico contra a dependência. Desde então, nunca mais fumei. Hoje, tenho dificuldade de me concentrar na leitura. Não consigo ler mais de três, quatro páginas. Sinto saudade da sensação que causa a maconha, claro. Mas não quero mais que ela domine a minha vida."

Álvaro Zunckeller, 32 anos, cineasta (Foto: Alexandre Schneider)

Apenas 10% dos pacientes internados em clínicas de recuperação de dependentes foram parar ali para tentar se livrar do vício da maconha. Ainda assim, muitos dos usuários da droga nessas clínicas foram diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade, depressão aguda ou ansiedade – sendo o vício de maconha apenas um componente do quadro psicótico e não seu determinante.

Risco mais alto de desenvolver esquizofrenia ou depressão

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Até pouco tempo atrás vigorou a tese de que a maconha só deflagra transtornos mentais em pessoas com histórico familiar dessas doenças. Essa noção benigna da maconha foi sepultada, entre outros trabalhos, por uma pesquisa feita pelo Instituto de Saúde Pública da Suécia. Um grupo de 50.000 voluntários foi avaliado durante 35 anos. Eles consumiram maconha na adolescência.

Os suecos demonstraram que o risco de um usuário de maconha sem antecedentes genéticos vir a desenvolver esquizofrenia ou depressão é muito mais alto do que o da população em geral. Entre os usuários de maconha pesquisados, surgiram 3,5 mais casos de esquizofrenia do que na média da população.

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No que se refere à depressão, o número de casos clínicos foi o dobro. Os sinais de perigo da fumaça estão surgindo em toda parte. “O bombardeio repetido da maconha sobre o cérebro cria uma marca neuronal indelével”, diz Ana Cristina Fraia, psicóloga da Clínica Maia Prime, em São Paulo, especializada no tratamento de dependência química.

Interfere nas sinapses, levando ao comprometimento das funções cerebrais.

A razão básica pela qual a maconha agride com agudeza o cérebro tem raízes na evolução da espécie humana. Nem o álcool, nem a nicotina do tabaco; nem a cocaína, a heroína ou o crack; nenhuma outra droga encontra tantos receptores prontos para interagir com ela no cérebro como a cannabis.

Ela imita a ação de compostos naturalmente fabricados pelo organismo, os endocanabinoides. Essas substâncias são imprescindíveis na comunicação entre os neurônios, as sinapses. A maconha interfere caoticamente nas sinapses, levando ao comprometimento das funções cerebrais.

O mais assustador, dada a fama de inofensiva da maconha, é o fato de que, interrompido seu uso, o dano às sinapses permanece muito mais tempo – em muitos casos para sempre, sobretudo quando o consumo crônico começa na adolescência. Em contraste, os efeitos diretos do álcool e da cocaína sobre o cérebro se dissipam poucos dias depois de interrompido o consumo.

Com 224 milhões de usuários em todo o mundo, a maconha é a droga ilícita universalmente mais popular. E seu uso vem crescendo – em 2007, a turma do cigarro de seda tinha metade desse tamanho. Cerca de 60% são adolescentes. Quanto mais precoce for o consumo, maior é o risco de comprometimento cerebral.

Dos 12 aos 23 anos, o cérebro está em pleno desenvolvimento. Em um processo conhecido como poda neural, o organismo faz uma triagem das conexões que devem ser eliminadas e das que devem ser mantidas para o resto da vida. A ação da maconha nessa fase de reformulação cerebral é caótica. Sinapses que deveriam se fortalecer tornam-se débeis. As que deveriam desaparecer ganham força.

Os efeitos psicoativos da maconha são conhecidos desde o ano 2000 antes de Cristo. Seu princípio psicoativo mais atuante é o tetraidrocanabinol (THC). Um outro componente da droga, o canabidiol, é o principal responsável pelos seus efeitos potencialmente terapêuticos.

No câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o psiquiatra José Alexandre Crippa estuda o efeito do canabidiol no tratamento da fobia social. Trinta e seis voluntários, metade deles composta de fóbicos, ingeriram cápsulas da substância e, em seguida, tiveram de falar em público.

Os níveis de ansiedade apresentados pelos portadores do transtorno equivaleram aos registrados pelos participantes sem a fobia. Todos os estudos sérios sobre os potenciais usos médicos da maconha mediram os efeitos de uma única substância, selecionada e isolada em laboratório – e não da inalação da fumaça de um cigarro. Diz Crippa: “Os defensores do uso medicinal do cigarro da maconha querem mesmo é obter a liberação da droga”.

Nos EUA, venda de receitas

Nos Estados Unidos floresce uma indústria de falsificação de receitas depois da legalização da erva para o tratamento do glaucoma e no controle da náusea de pacientes submetidos a quimioterapia. Para a alegria dos viciados, médicos inescrupulosos prescrevem a droga por preços que variam de 100 a 500 dólares.

Em nenhum país a maconha é completamente liberada. Um dos mais notoriamente tolerantes é a Holanda, que permite o consumo da erva nos coffee shops, mas, ainda assim, os proprietários só estão autorizados a vender 5 gramas, o equivalente a um cigarro, para cada cliente.

Recentemente, o governo holandês proibiu a venda da droga para estrangeiros. Nem sempre foi assim. Na década de 70, quando a Holanda descriminalizou a maconha e se tornou uma espécie de Disney libertária, fumava-se em praça pública. A festa acabou cedo. Desde então, o tráfico só aumentou. A experiência holandesa – e o recuo das autoridades – derruba um dos mais rígidos pilares da defesa pela liberação: o de que a venda autorizada poria fim ao tráfico. Não pôs.

No Brasil, desde 2006, com a lei antidrogas aprovada pelo Congresso e sancionada pelo então presidente Lula, foi estabelecida uma distinção na punição de traficantes e usuários. Os bandidos estão sujeitos a até quinze anos de prisão. O consumidor não vai para a cadeia. Nesse caso, o juiz decide por uma advertência verbal, pela prestação de serviços comunitários ou recomenda um tratamento médico.

A lei brasileira não contempla o volume máximo da droga a ser classificado como uso pessoal. Luana Piovani e Isabel Filardis são algumas das celebridades que defendem a tese de que a maioria dos presos com maconha “nunca cometeu outros delitos, não tem relação com o crime organizado e portava pequenas quantidades da droga no ato da detenção”.

Do ponto de vista social, elas estão corretíssimas. Do ponto de vista da saúde e da aplicação das leis, nem tanto. O advogado criminalista Pedro Lazarini faz restrições: “Um bandido pode se valer desses limites para nunca ser condenado”. O ideal seria que as evidências científicas incontestáveis sobre os ruinosos efeitos da maconha para a saúde sejam levadas em conta. Todos ganham com isso.


“ATUALMENTE, ‘PEGA MAL’ SER CONTRA A LIBERAÇÃO DA MACONHA”

Aos 66 anos, o paulistano Valentim Gentil Filho é um dos mais renomados psiquiatras do país. Com doutorado em psicofarmacologia clínica pela Universidade de Londres, ocupou o cargo de presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas durante doze anos – sem nunca ter abandonado a prática clínica.

Tamanha experiência o levou a defender a condenação da maconha. “Trata-se da única droga a interferir nas funções cerebrais de forma a causar psicoses irreversíveis”, disse a VEJA. “Se fosse para escolher uma única droga a ser banida, seria a maconha.”

Nos últimos dois anos, a ideia da descriminalização para o usuário da maconha ganhou força no país. Recentemente, um grupo de juristas apresentou a proposta no Senado com o objetivo de a medida ser adotada na reforma do Código Penal. O que o senhor acha disso?

O tráfico deve adorar isso. Em hipótese alguma dá para liberar geral. Estamos falando de substâncias altamente tóxicas. Um dos argumentos pró-maconha é que a legalização reduziria o consumo da droga. As pesquisas mostram, no entanto, que, quando o consumo é referendado e a droga é considerada segura, o adolescente experimenta mais. A história de que os jovens se sentem estimulados a usar drogas por serem proibidas se aplica apenas a uma minoria.

Há muitos médicos, inclusive da sua especialidade, que não pensam como o senhor.

Não é simpático expressar uma opinião contrária à cultura da “anticaretice” que impera no país em relação à maconha. Atualmente, “pega mal” ser contra a liberação da maconha. Até mesmo entre os médicos. O fato de a maconha não ser tão agressiva como outras drogas quando usada nas primeiras vezes contribui para isso. Mas ou esses médicos estão muito desinformados ou eles têm acesso a fontes científicas bem diferentes das minhas. Se fosse obrigado a escolher uma única droga a ser banida, seria a maconha, sem sombra de dúvida.

De que forma a maconha seria mais prejudicial do que as outras drogas?

Drogas como heroína, cocaína e crack são devastadoras porque podem matar a curto ou curtíssimo prazo. Além disso, é difícil se livrar dessas substâncias pelo alto grau de dependência que apresentam.

Os danos que elas causam ao cérebro, porém, cessam quando deixam de ser usadas. Ou seja, passado o período de abstinência, as funções do organismo se restabelecem.

Com a maconha a história é outra. É a única droga a interferir nas funções cerebrais de forma a causar psicoses definitivas, mesmo quando seu uso é interrompido.

Qualquer usuário está suscetível a tais danos?

Sim, mas em graus diferentes, a depender da frequência de consumo e da tolerância do organismo do usuário. É uma roleta-russa. O consumidor esporádico, aquele que fuma às vezes, está sujeito a sofrer estados psicóticos transitórios, como alucinação e paranoia, ataques de pânico e ansiedade. O efeito permanente nas conexões nervosas se dá no uso crônico. Aí, sim, absolutamente todos sofrem algum prejuízo.

O astrônomo americano Carl Sagan (1934-1996) foi usuário da maconha e um defensor ferrenho da droga. Ainda assim, deixou o legado de uma carreira brilhante. Ele teria sido uma exceção?

Sagan foi um gênio, e sou fã dele. Mas penso que, se não tivesse usado tanta maconha, ele teria sido um profissional ainda mais brilhante e mais responsável. Sagan tinha algumas ideias estapafúrdias para um astrônomo.

Por exemplo: ele se tornou um dos líderes do Seti (Search for Extra-Terrestrial Intelligence – Busca por Inteligência Extraterrestre), que investiu centenas de milhões de dólares na busca de sinais alienígenas ou provas de alguma civilização extraterrestre. Repito aqui: não há exceções para os danos causados pela maconha.

É possível identificar os adolescentes mais propensos a usar a droga?

Há entre eles um traço de personalidade conhecido como “busca de novidade” (novelty seeking) ou “busca de sensações” (sensation seeking). Pessoas com esse perfil se expõem mais a riscos, têm menor controle sobre suas emoções, são mais impulsivas e têm maior probabilidade de se tornarem dependentes da maconha. No extremo oposto, alguns jovens introvertidos e ansiosos também ficam vulneráveis, dependendo do ambiente. Famílias estruturadas ajudam, e a presença dos pais monitorando o comportamento é uma proteção importante, mas não é garantia contra o uso.

Qual é a sua opinião sobre o uso medicinal da maconha?

Acredito em benefícios de determinadas substâncias extraídas da planta que dá origem à maconha, a Cannabis. Isso é diferente de preconizar o uso terapêutico da maconha fumada, que tem muitos compostos nocivos ao organismo, além da fumaça quente retida no pulmão, com potencial cancerígeno.

Não acredito nem mesmo nas versões “purificadas” da planta, vendidas em alguns estados americanos e em coffee shops europeus. Não há tecnologia capaz de certificar que um baseado tenha apenas substâncias não tóxicas da planta. Aliás, a venda nesses lugares é uma bagunça.

O filho de um amigo conseguiu comprar maconha medicinal na Califórnia porque no mesmo lugar onde comprou a droga comprou também a receita médica. Uma coisa tem de ficar clara: a agência de saúde oficial americana (FDA) não valida o consumo da maconha ou de outros preparados da Cannabis para fins medicinais. Alguns estados liberam por meio de seus governos.

O senhor já fumou maconha?

Nunca. E jamais tive vontade.

Seus filhos já fumaram?

Não que eu saiba.

Adriana Dias Lopes
Fonte: Revista Veja 2293 de novembro de 2012


Momentos de Reflexão

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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Nos mesmos erros

"Então partiram do monte Hor, pelo caminho do Mar Vermelho, a rodear a terra de Edom; porém a alma do povo angustiou-se naquele caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil. Então o SENHOR mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel. Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado porquanto temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia" (Números 21:4-9)

Aqui, Oo povo hebreu, o povo de Deus, estava já há muitos anos caminhando pelo deserto, já há quase quarenta anos caminhavam pelo deserto.

Este povo escolhido por Deus, era um povo que não se firmava nas promessas de Deus. Eles estavam já há tanto tempo no deserto, justamente por serem rebeldes ao SENHOR, mas esta lição parecia ser dura de aprender (Nm 14:22-23; 29-34).

Mas a rebeldia de Israel tem muito a nos ensinar...:

v4 - "Então partiram do monte Hor, pelo caminho do Mar Vermelho, a rodear a terra de Edom; porém a alma do povo angustiou-se naquele caminho"
O texto diz que o povo teve que contornar a terra de Edom e que, por conta disso, “a alma do povo angustiou-se”.

Moisés havia pedido permissão ao rei de Edom para passar por suas terras e, assim, chegar à terra de Canaã, mas isso não lhes foi permitido. Edom era uma terra onde certamente não lhes faltaria água, nem alimento, mas ainda que tivessem prometido pagar por tudo o que fosse consumido por eles e por seus animais, não receberam permissão (Nm 20:14-20). Foi preciso contornar as terras por um caminho que, pelo que podemos entender, foi pesaroso e escasso de água.

Há momentos em que ficamos angustiados porque parece que nossos sonhos ficam mais distantes; há momentos que o descanso parece fugir de nós; às vezes parece que nossas conquistas escapam por entre nossos dedos: “Ah! Logo agora que parecia tão perto!”. E num momento tudo parece perdido.

O povo estava próximo da ‘terra prometida’, mas precisou dar uma volta para alcança-la e o caminho mais fácil ficou para trás. E fico pensando uma coisa quando leio este texto: O povo de Israel era guiado e dirigido por Deus. De dia uma coluna de nuvem e de noite uma coluna de fogo orientava todo o povo. Deus era quem determinava quando partir e quando acampar (Nm 9:15-23). Mas Moisés pediu permissão para passar pela terra de Edom e não a conseguindo, teve que contornar a região. Ora, se era Deus quem conduzia o povo, logo foi por permissão de Deus que eles contornassem Edom! Se a coluna que ia adiante deles os guiasse, os conduzisse, para dentro das terras de Edom, não teria o povo seguido, com ou sem a permissão do rei de Edom? Com certeza! Mas ainda assim, Deus em sua soberania não interferiu no livre-arbítrio do rei de Edom e conduziu Israel pelos contornos de suas terras. Aquele caminho pesaroso e de escassez de água foi o caminho por onde Deus conduziu o seu povo. Deus estava com eles!

Muitas vezes nos esquecemos disso! Em momentos de aflições, de desilusões, em momentos em que nossas realizações parecem distantes de nós, em momentos de dificuldades e escassez, Deus também está conosco! Ele não nos abandona. O Senhor, em Sua Palavra, nunca nos prometeu um caminho fácil, muito pelo contrário: “O caminho é apertado e a porta é estreita” (Mt 7:14) - o caminho é apertado, não há conforto; “Ide. Eis que vos mando como cordeiros no meio de lobos” (Lc 10:3) – o que acontece com cordeiros no meio de lobos? – “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8:34) – o que isso quer dizer? Será que seus discípulos entenderam o que o Senhor Jesus quis dizer com isso? Certamente! A cruz era um instrumento de martírio. Era a pior pena que um condenado poderia sofrer. Todo condenado à morte por crucificação era obrigado a carregar a sua cruz até o local de seu martírio. Era isso que o Senhor dizia aos seus discípulos: "Querem me seguir? Então venham, peguem sua cruz e sigam-me! De agora em diante vocês estão mortos para este mundo; já estão condenados por ele. De agora em diante vocês morreram para esta vida, para os seus desejos e paixões, morreram para o seu próprio eu". Será que é fácil viver uma vida de renúncia? Será que é fácil viver uma vida de entrega total a Cristo e ao próximo? Sabemos que não. Jesus nos disse ainda: “No mundo tereis aflições” (Jo 16:33) – enquanto estivermos neste mundo seremos afligidos, angustiados, padeceremos dores. O Senhor nunca nos prometeu um caminho fácil, mas nos prometeu que sempre estaria conosco! “Eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28:20) – a caminhada não é fácil, mas Ele está conosco! Problemas vêm, mas Ele está conosco! Seremos angustiados, mas Ele está conosco! Vamos ser derrubados algumas vezes, mas Ele está conosco! Vamos ser injustiçados muitas vezes, mas Ele está conosco!
Aqui abro um parenteses: E em momentos de injustiça, tomem muito cuidado para não disfarçarem um pedido irado de vingança por trás de uma suposta oração de glorificação a Deus. Porque é muito fácil mascararmos nosso ódio debaixo de uma falsa adoração: “Senhor, me exalta neste lugar para que estes que me humilharam sejam envergonhados!”; “Ó Senhor, pese suas mãos sobre estes que me afrontam, para que teu nome seja glorificado neste lugar!” - Isso é na verdade, um clamor por vingança. Mas deixe toda vingança nas mãos do Senhor que é perfeitamente Justo para retribuir a cada um conforme aquilo que fizerem. Vamos preferir seguir o exemplo de Cristo: “Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34) – não é o mais fácil, mas é o mais correto e também nisto Deus está conosco!
E o povo de Israel passou neste momento, conforme lemos, por uma desventura, por uma dificuldade. E diante de problemas o povo de Deus, ou clama ao Senhor e descansa em sua providência, ou murmura, demonstrando pouca confiança nas Suas promessas. Israel escolheu murmurar:

v5 – “E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito para que morrêssemos neste deserto? Pois aqui nem pão nem água há; e a nossa alma tem fastio deste pão tão vil”

Mas que povinho ingrato! Que povo perverso! Mas que gentinha pequena e medíocre! Percebam o quão baixo foi o caráter deste povo por conta desta murmuração: este povo era escravo no Egito e Deus liberta toda esta gente da opressão de Faraó. Liberta com grandes sinais e prodígios. Deus opera milagres incríveis diante de todos, demonstrando o seu poder e juízo; demonstrando que Ele é o Único e Verdadeiro Deus. E agora este povo caminhava livre pelo deserto rumo a uma terra muito boa, terra que manava leite e mel, terra esta prometida por este mesmo Deus Poderoso e Verdadeiro que os livrara das mãos de Faraó. E agora diante de uma dificuldade o que o povo diz:

"Ah, porque saímos do Egito?” – Perceberam? Para este povo era melhor permanecer escravo e ser duramente oprimido, se isso lhe garantisse pelo menos boa comida, do que ser livre e padecer, por algum tempo, de alguma necessidade até que alcançasse a terra prometida, a terra melhor, o lugar de fartura, terra que manava leite e mel. Para eles era melhor serem escravos, se isso lhes desse algum tipo de conforto, do que serem livres e terem que depender totalmente de Deus numa terra árida e sem recursos, por algum tempo, até que alcançassem a terra da promessa. Para eles era melhor o salário da escravidão do que o sustento de Deus!

“Ah, está terra é seca, não há água neste lugar!” – não fazia muito tempo, Deus, por meio de Moisés, fez fluir água da rocha para saciar a sede não só do povo como também de todos os seus animais. Ora, esse Deus Poderoso e Benigno que já os vinha sustentando há tanto tempo não continuaria a Sua obra até cumprir a Sua promessa? Mas este povo não se firmava nas promessas de Deus, nem se lembravam do Seu cuidado e sustento.

“Ah, já estamos enfastiados deste pão, já enjoamos deste pão tão vil” – o povo passou a desprezar o maná de Deus. Deus enviava todas as manhãs o maná sobre o deserto. Era maravilhoso este milagre de Deus na vida do povo de Israel. Segundo a Palavra de Deus o maná era como a semente de coentro que quando comido ao natural seu sabor era como o de bolos de mel (Ex 16:31), já quando moído ou amassado e preparado ele tinha o gosto de azeite fresco (Nm 11:7-8). E mesmo diante de todo este cuidado de Deus, o povo murmura!

Mas vamos tirar os olhos de Israel um pouco e vamos olhar para nós mesmos, vamos olhar para nossas próprias atitudes. Porque muitas vezes lemos a história de Israel e pensamos assim: “Ah, se eu tivesse visto estas maravilhas jamais agiria como este povo rebelde!”. Será? Porque a história do êxodo de Israel ilustra a nossa própria história, nós podemos dizer que a história de Israel é um espelho da nossa própria história: A vida de escravidão no Egito pode ser entendida como a nossa vida de escravidão no pecado; viver no Egito é viver no mundo longe da vontade de Deus, longe da comunhão com Deus, debaixo da opressão do inimigo. A Páscoa que o povo de Israel celebrou na noite em que Deus libertou a nação, simboliza a morte de Cristo cujo sangue livra da morte e da escravidão do pecado todo aquele que nele crê. A peregrinação de Israel pelo deserto simboliza a nossa própria peregrinação, porque seguimos como forasteiros neste mundo (1Pe 2:11), pois nossa pátria não é daqui, nossa terra prometida é a Jerusalém Celestial (Hb 11:13-16, 12:22; Ap 21:1-3). Até que alcancemos a promessa de Deus, peregrinaremos neste deserto que é o mundo. Então percebam que nós também somos, muitas vezes, mesquinhos como foi o povo de Israel. O Senhor nos tirou da escravidão do pecado, nos tirou do reino das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor (Cl 1:13), nos prometeu a Vida Eterna na Nova Jerusalém, uma vida plena de comunhão com Ele, mas até que a plenitude dos tempos se cumpra, por um pouco, seremos contristados, até que a glória de Deus se manifeste em nós (1Pe 1:3-7). Mas mesmo diante de tamanha promessa, mesmo diante de toda a providência de Deus em nossas vidas, nós muitas vezes, preferimos buscar prazer e conforto na escravidão da velha vida de pecados. A Palavra nos diz que “se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co 5:17) e que o verdadeiro valor em Cristo é o “ser nova criatura” (Gl 6:15), mas nós muitas vezes desprezamos a vida de nova criatura para vivermos a velha vida sem qualquer compromisso com o Pai; longe de Sua vontade, ou da Sua comunhão. Olhe para a sua própria vida e analise quantas vezes você tem deixado Deus de lado e feito aquilo que não é de Sua vontade. Quantas vezes temos buscado a nossa própria satisfação, ainda que esta seja contrária à vontade de Deus? Quando leio a história de Israel eu me vejo muitas vezes agindo como eles e só encontro uma explicação para eu estar aqui hoje: a imensa graça e misericórdia de Deus agindo na minha vida. E a história de Israel também nos dá um alerta: O Deus de amor também traz juízo, mas Ele sempre nos dá uma oportunidade de nos arrependermos.

v6 – “Então o SENHOR mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel”
Diante da ingratidão do povo de Israel e mais, diante da falta de confiança do povo nas promessas do SENHOR, Deus envia serpentes no meio da congregação. A falta de fé no SENHOR trouxe ao povo uma dificuldade ainda maior. Se já estava difícil para o povo enfrentar o deserto, agora então, tornou-se insuportável.

E qual lição tiramos disto? Que no deserto – lugar de provação; de purificação; de tratamento de Deus; lugar onde, muitas vezes, nos sentimos sós e desamparados – a fé em Deus é o que torna nossa caminhada menos conturbada; é esta fé em Deus que nos trará aperfeiçoamento e maturidade espiritual. Estar no deserto e não buscar o apoio de Deus é atrair para si as serpentes que mais, cedo ou mais tarde, vão dar uma mordida fatal.

Mas qual é a função da tribulação na vida do crente? Será que há algum motivo para as tribulações, as dificuldades ou aflições na vida dos cristãos? O versículo seguinte nos mostra que sim:

v7 – “Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado porquanto temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo”
Eis aqui o princípio de toda repreensão que vem da parte de Deus: o seu objetivo principal é levar o pecador ao arrependimento verdadeiro. Toda repreensão, ou correção que vem da parte de Deus tem por fim o arrependimento do pecador para que este volte aos caminhos do SENHOR. É esta a verdade que lemos na Palavra de Deus: “Porque o SENHOR repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” (Pv 3:12). E o Senhor Jesus também disse: “Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe” (Lc 17:3) – porque a repreensão não deve ser usada como uma forma de subjugar os outros, mas de entrar em comunhão pelo amor de Cristo, reinando a Paz. Onde há perdão, não há mais a lembrança angustiosa da falha.

Aqui, o povo de Israel estava sendo disciplinado pelo SENHOR e Seu objetivo era levar a nação ao arrependimento. E o povo entendeu – ‘Estamos pecando. Estamos murmurando contra o SENHOR!’. Entendendo o seu erro, o povo clama a Moisés que interceda por eles. Tomaram a atitude correta. Moisés era a boca de Deus no meio do povo. Mas o mais interessante desta história toda foi a providência divina para o clamor daquele povo:

v8 – “E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela”
Mas qual foi o pedido do povo? “ora ao SENHOR que tire de nós estas serpentes”. Mas notem que Deus proveu ao povo uma forma de enfrentarem aquela adversidade. Deus não retirou as serpentes do meio da congregação; Deus não retirou a tribulação do meio do povo, mas deu a todos um escape para suportarem a tribulação.

Na grande maioria das vezes (para não dizer todas), nós clamamos ao Pai pedindo a Ele que Ele retire de nós toda a tribulação, assim como os israelitas fizeram; pedimos a Ele que nossos problemas desapareçam – até porque entendemos errada a oração que o Senhor nos ensinou: “Não nos deixe cair em tentação” (Mt 6:13) - Este versículo pode ser melhor entendido da seguinte forma: "Senhor, na tentação não me deixe cair"; "enquanto eu estiver em tentação me deixe de pé, Senhor!". Aqui o Senhor nos ensina a clamar ao Pai para que Ele nos livre das tentações às quais não podemos suportar: "Senhor, não me conduza àquelas situações para as quais eu ainda não estou preparado para suportar". Mas se você está maduro, aguarde provações e fique tranquilo porque: “... Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar” (1 Co 10:13) - o melhor é pedirmos ao Pai sabedoria e força para superarmos toda tribulação.

As serpentes estavam por toda parte, o povo estava arrependido e amedrontado e buscou em Deus uma solução. A solução de Deus para o povo foi: "Vamos exercitar a fé deste povo" – não foi o que Deus disse, mas eu entendo que foi esta a intenção dEle.

Quando Deus mandou que Moisés fizesse uma serpente de metal fixada numa haste e que a pusesse num lugar visível a todo o povo, Deus não concedeu nenhum poder especial àquela serpente de metal, mas direcionou a nação a crer em sua promessa: ”e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela”. É de vital importância entender que o que livrava da morte não era a imagem da serpente, mas sim a fé daquele que a olhava e cria na promessa do SENHOR. E como é que podemos ter certeza disto? Examinando as Escrituras!

Se nos reportarmos ao Livro de Tiago encontraremos uma passagem interessante a respeito da cura divina:
“Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados” (Tiago 5:14-15)
– aqui vemos a orientação de Tiago para que os presbíteros (bispos e pastores – não é qualquer um) orassem e ungissem os enfermos, para que fossem curados. Notemos que o Senhor levantará o doente segundo a oração da fé! Não é a unção com o óleo o mais importante, mas sim a oração da fé na promessa de que o Senhor levantará o doente.

É na fé que está o real valor. O mais relevante sobre esta questão, entretanto, é a comparação que o Senhor Jesus fez:

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:14-15).
O Senhor Jesus apresentou este evento da vida do povo de Israel como uma figura do que viria a acontecer consigo mesmo. A serpente de metal levantada no deserto, conforme as palavras do próprio Senhor Jesus, foi uma figura de Cristo no Antigo Testamento. Ora, se são salvos pela Graça de Deus todos os que creem em Cristo e não, simplesmente, os que olharam para Ele, assim também foram salvos mediante fé, todos os que, olhando para serpente, creram na promessa do SENHOR. A serpente de metal de forma figurada representa o Senhor Jesus, pois foi levantada, assim como o Senhor Jesus também; foi uma providência de Deus para livrar as pessoas da morte física, assim como nosso Senhor foi a providência divina para livrar as pessoas da morte espiritual e, na consumação dos séculos, também da morte física para sempre; a serpente de metal foi um livramento em meio a adversidade (não da adversidade), assim como o Senhor Jesus é o nosso Salvador que nos salva já neste mundo, para por fim, nos salvar também deste mundo; a serpente de metal foi uma bênção de Deus para o povo de Israel, assim como nosso Senhor Jesus é a maior bênção que o Pai ofereceu a todos os povos e nações da terra.

v9 – “E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia”
Segundo a palavra de Deus, Moisés fez a serpente, e conforme Sua própria palavra, Deus cumpriu a Sua promessa: todo aquele que, picado por alguma serpente, olhava para a serpente de metal, permanecia vivo. Mas uma vez é bom frisarmos: Deus não livrou o povo das serpentes, nem mesmo de suas picadas, mas permaneceu fiel as Suas promessas e preservou a vida de todo aquele que creu.

Nesta vida encontraremos com muitas serpentes pelo caminho. Algumas virão em desertos, outras virão em mananciais e nos pegarão de surpresa, algumas talvez consigam nos picar; pode ser até que nos deparemos com aquela Antiga Serpente, mas não se assustem, sigam o conselho do homem de Deus: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4:7) – mantenha-se sujeito a Deus, debaixo da Sua autoridade que assim você resiste, até que ele fuja e não se esqueça, o Senhor já nos revelou acerca desta Antiga Serpente: em breve “o Deus de paz esmagará Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm 16:20). Apenas sigam o conselho do nosso Senhor: “tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16:33) – o Senhor está nos dizendo: tende bom ânimo, não desanime durante sua caminhada; persevere em sua fé. Não deixe seu fôlego acabar, o mundo pode ser terrível, mas Eu venci o mundo; toma fôlego de mim, se encha do meu sopro, se encha do meu Espírito (Ef 5:18) e te conduzirei em segurança mesmo que em meio a desertos.

Deus tem sempre o melhor para nos oferecer, mas muitas vezes nós não reconhecemos. E ter a Deus como nosso Senhor é a maior bênção que poderíamos almejar – “Bem-aventurado é o povo cujo Deus é o SENHOR” (Sl 144:15) – mas nós ficamos buscando bênçãos menores e nem nos propomos a, pelo menos, buscar em Deus sabedoria para usufruir das bênçãos menores que Deus graciosamente nos dá.

Além do mais, nós temos uma irritante habilidade para transformar as bênçãos de Deus em maldições nas nossas vidas.

Quantas histórias nós conhecemos de pessoas que receberam uma provisão de Deus, um bom emprego, mas que com o tempo, deixaram-se dominar pelo seu emprego, pelas suas obrigações, a ponto de não mais poderem congregar e até de perderem a vontade de congregar? É um exemplo de bênção da parte de Deus que transformamos em maldição. Mas alguns podem me questionar e dizer que isto, na verdade, não foi uma bênção de Deus, mas um laço do inimigo para desviar o crente do caminho. Então eu já complemento, perguntando: Quando Deus enviou codornizes para o povo no deserto comer, isso foi uma bênção da parte de Deus ou uma maldição? Vamos analisar:

O povo de Israel, como de costume, murmurou contra Deus:

Ex 16:3 –“Quem dera tivéssemos morrido por mão do SENHOR na terra do Egito, quando estávamos sentados junto às panelas de carne, quando comíamos pão até fartar! Porque nos tendes trazido a este deserto, para matardes de fome a toda esta multidão”.
Em resposta, o SENHOR, em Sua misericórdia responde:

Ex 16:12-14 – “Tenho ouvido as murmurações dos filhos de Israel. Fala-lhes, dizendo: Entre as duas tardes comereis carne, e pela manhã vos fartareis de pão; e sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus. E aconteceu que à tarde subiram codornizes, e cobriram o arraial; e pela manhã jazia o orvalho ao redor do arraial. E quando o orvalho se levantou, eis que sobre a face do deserto estava uma coisa miúda, redonda, miúda como a geada sobre a terra” [o maná].
Mesmo diante de tamanha ingratidão de Israel, o SENHOR abençoou aquele povo com carne e pão. Mas esta bênção que veio da parte de Deus, como prova de que JEOVÁ é o único Deus Verdadeiro, tornou-se em maldição por causa da dureza e ingratidão de coração deste povo. Vejam: numa outra ocasião o povo de Israel, mais uma vez, murmura contra o SENHOR:

Nm 11:4 – “E o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer?”

Nm 11:6 – “Mas agora a nossa alma se seca; coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos”
.

E a respostado SENHOR foi:

Nm 11:18 – “E dirás ao povo: Santificai-vos para amanhã, e comereis carne; porquanto chorastes aos ouvidos do SENHOR, dizendo: Quem nos dará carne a comer? Pois íamos bem no Egito; por isso o SENHOR vos dará carne, e comereis” – Nm 11:31-32 – “Então soprou um vento do SENHOR e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial quase caminho de um dia, de um lado e de outro lado, ao redor do arraial; quase dois côvados sobre a terra. Então o povo se levantou todo aquele dia e toda aquela noite, e todo o dia seguinte, e colheram as codornizes; o que menos tinha, colhera dez ômeres; e as estenderam para si ao redor do arraial – esta foi a bênção.

Mas seguindo o texto, lemos:

Nm 11:33-34 – “Quando a carne estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do SENHOR contra o povo, e feriu o SENHOR o povo com uma praga mui grande. Por isso o nome daquele lugar se chamou Quibrote-Ataavá, porquanto ali enterraram o povo que teve o desejo” – o que era uma bênção da parte de Deus, Israel tornou em maldição porque desejou as delícias do Egito, desprezando as dádivas de Deus.

Outro exemplo claro é a própria serpente de metal. A serpente de metal foi uma bênção de Deus para povo. Foi o sinal do livramento de Deus entre o povo de Israel. Mas o que aconteceu com esta serpente? A serpente que deveria ser um símbolo da fidelidade de Deus, um memorial do cumprimento da promessa de Deus, pelo menos enquanto as víboras estavam entre o povo, tornou-se uma grande pedra de tropeço no meio da nação de Israel. Em 2 Reis 18 encontramos a história do rei Ezequias e no versículo 4 temos a seguinte descrição de seus atos:

“Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã”
Aquilo que era uma bênção da parte de Deus, tornou-se uma maldição, não pelo SENHOR, mas pela imaturidade do povo de Israel que insistia em se rebelar contra Deus, fazendo de meros símbolos uma fonte de idolatria. É por isso que eu não gosto do uso de objetos para “ajudar a fé”: rosa ungida, sabonete ungido, roupas ungidas, lenços, fitinhas, canetas, contratos ungidos; até porque, no novo testamento, o único alvo de unção com óleo são os enfermos. Não vemos no novo testamento unção de objetos, só unção de enfermos (Tg 5:14). Esses tipos de coisa, em minha opinião, só nos fazem mudar o foco da verdadeira devoção. Ao invés de depositarem a fé no Deus que sara, que é provedor, que é a nossa Paz, passam a depositar a fé na correntinha ungida, na água ungida, no sal, na fogueira... Foi o que aconteceu com o povo de Israel, ao invés de firmarem sua fé no Deus da providência, fizeram da providência divina o seu próprio deus. O perigo é que de repente, para uma porção de gente, o que cura é a rosa e não Deus; o que livra é óleo lambuzado no carro e não Deus; o que liberta do pecado é a fogueira santa e não o sangue de Cristo.

Israel deixou a adoração do Deus Verdadeiro de lado para adorar a serpente de metal. E a conclusão que tiramos de tudo o que foi dito é: busquemos sempre o Deus de todas as bênçãos e não todas as bênçãos de Deus. Ainda que não conquistemos tudo o que queremos, vamos agradecer a Deus por tudo o que já conquistamos. E ainda que a vida nos reserve derrotas, saibamos que a maior de todas as derrotas é viver a vida e morrer sem Deus. Persevere na sua caminhada; não desista em meio aos desertos da vida; mantenha sua fé viva no Deus das promessas e seu coração ancorado nas promessas de Deus.

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quinta-feira, 14 de março de 2013

O tribunal totalitário do sindicalismo gay

Por: Reinaldo Azevedo Título original: O tribunal totalitário do sindicalismo gay. Ou ainda: Daqui a pouco, os políticos terão de se ajoelhar diante de Pedro Abramovay, o juiz supremo de um tribunal de exceção.

Não vou desistir, não! Os fascistas — vistam vermelho, preto ou rosa — fazem linchamentos morais do lado de lá, eu continuarei, do lado de cá, a lembrar como funciona uma sociedade democrática e de direito. Grupos de pressão agora deram pra fazer das ONGs e das redes sociais verdadeiros tribunais de exceção. As pessoas são julgadas e condenadas sem nem mesmo direito de defesa. E têm contado, sim, com o apoio de amplos setores da imprensa. Raramente tantos foram tão intolerantes em nome da tolerância. Ora, defender a liberdade de expressão daqueles que pensam como a gente é coisa fácil. Stálin, Hitler, Mao Tsé-tung ou Kim Jong-Il não fariam melhor. Quero ver é a defesa da dita-cuja para os que pensam de modo diferente...

Ontem, li nos sites dos grandes portais que o Grupo Gay da Bahia, chefiado por Luiz Mott, resolveu conferir o troféu, atenção para o nome!, “Pau de Sebo” para o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para o ex-governador José Serra e para o ministro da Educação Aloizio Mercadante. Eles foram considerados “inimigos dos homossexuais” porque teriam se oposto ao chamado kit gay nas escolas. É uma vigarice intelectual, uma trapaça, uma safadeza — ou os gays estariam imunes a esses males? Nenhum dos três, é evidente, é “inimigo dos homossexuais”. Haddad e Mercadante podem ter muitos defeitos — este, que se saiba, não! Incluir Serra na lista, então, evidencia mais uma vez o rigor intelectual com que opera o tal Mott, professor de antropologia da Universidade Federal da Bahia. Em outras circunstâncias, ele já teve a chance de demonstrar que, como intelectual, é um excelente candidato a animador de auditório… É uma vergonha!

Haddad, longe de ser “inimigo dos homossexuais”, poder ser considerado até mais do que um “amigo”: é um verdadeiro “gayzista”. Foi na sua gestão que se criaram os famigerados kits gays para ser distribuídos nas escolas — a crianças do Ensino Fundamental também. Entre as pérolas que lá estavam, vocês devem se lembrar, havia um filminho que declarava a superioridade da bissexualidade sobre a heterossexualidade porque a pessoa aumentaria em 50% a chance de ter com quem sair no fim de semana. Ainda que se desconte o erro de matemática, sobra a estupidez moral e pedagógica. Seria oferecido a crianças um pega-palavras para identificar o nome da pessoa que está insatisfeita com a sua genitália. Um outro filme defendia que os travestis usassem o banheiro das meninas e que fossem chamados pelos professores por seu nome feminino. E isso era apenas parte da estupidez. Na gestão Haddad, esse material foi preparado por ONGs e custou dinheiro. Ninguém sabe quanto ao certo. Só não chegou às escolas porque houve uma forte mobilização de parlamentares — especialmente, sim, da bancada evangélica. A própria presidente Dilma Rousseff ordenou que o material não fosse distribuído, o que lhe rendeu o troféu “Pau de Sebo” de 2012. O fato de o Grupo Gay da Bahia ser estúpido também com petistas não o faz menos… estúpido!

Militância cega

O troféu conferido a Serra evidencia a cegueira dessa militância. O ex-ministro da Saúde merecia ser considerado, isto sim, quase um herói — não exatamente da causa gay, mas, se me permitem, de uma causa humanista de especial interesse para os gays. Quando o mundo praticamente não olhava para o problema, ele foi à luta, enfrentou resistências internas, a indústria farmacêutica, uma série de preconceitos e quebrou a patente de remédios que compõem o chamado “coquetel anti-AIDS”. Estruturou aquele que foi considerado pela ONU o maior e mais eficaz programa de prevenção e combate à doença. Milhares de gays — e também de héteros e de hemofílicos — se salvaram em razão desse programa, que, de outro modo, não teria essa extensão. Quando governador de São Paulo, Serra criou o Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais, um grupo que tem particularidade e que requer tratamento específico.

Por que ele seria, então, “inimigo dos homossexuais”? Ah, porque ele se opôs ao kit gay! Aí se evidencia a essência totalitária disso que chamo “sindicalismo gay”. Para que alguém, então, possa ser considerado um “amigo” da turma, é preciso que se lhe conceda também o direito EXCLUSIVO de educar as nossas crianças. Ou nada feito! Notem: a essa fatia do sindicalismo gay, o que um governante efetivamente faz em defesa de homossexuais não tem a menor importância. Eles exigem é a comunhão de valores. Dado o seu tamanho, a entidade que mais atende homossexuais pobres vítimas da AIDS é a… Igreja Católica! Mas isso, para essa turma, é também irrelevante. Se a Igreja não amparasse um só doente, mas fosse favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, então ela seria considerada uma entidade “amiga dos homossexuais”.

Essa gente está mais empenhada numa guerra de valores do que propriamente em ajudar os que sofrem. E não veem problema nenhum em sair por aí enlameando reputações. O GGB explica por que o troféu se chama “Pau de Sebo”: “Para mostrar o ridículo de ser inimigo dos LGBT: por mais que queiram espezinhar os gays e destruir o movimento de libertação homossexual, nunca chegam a seu objetivo, caindo e se lambuzando no pau de sebo da intolerância”. É evidente que essa é a versão, digamos, “de família”. Não é preciso ser muito sagaz para desconfiar que, para a plateia de Mott, a graça do “pau” e do “sebo” do título está na ambiguidade… Asqueroso!

Reitero: se Serra jamais tivesse movido uma palha em favor da quebra de patentes e da distribuição do coquetel; se jamais tivesse criado qualquer centro de referência de tratamento de homossexuais, se jamais tivesse salvado uma vida, mas se dissesse favorável ao kit, então ele ganharia um “Triângulo Rosa”, que é o troféu que o grupo confere aos “amigos dos gays”.

Mott, o irresponsável

A irresponsabilidade intelectual de Mott, um “professor” (Deus meu!), não é recente. Ele elaborou uma lista de supostos 100 gays VIPs do Brasil. Este senhor não precisa de fonte, de pesquisas, de nada. Basta-lhe a afirmação desairosa de alguém sobre um desafeto e pronto! Uma carta gentil a um amigo ou uma amiga é o suficiente para que decrete: “É gay”. Até as primeiras décadas do século 20, era comum, em Portugal e no Brasil, que amigos se despedissem em missivas com um “Do teu… Fulano de Tal”. Mott veria coisa ali… É assim que os poetas Olavo Bilac e Álvares de Azevedo entraram na lista. Também Dom João VI e Dona Leopoldina. Ou Zumbi do Palmares. O raciocínio que ele faz para concluir pela homossexualidade de alguém é mais uma evidência de seu refinamento teórico. Ele acha que Cristo, por exemplo, muito provavelmente era gay. E explica assim: “Ele era delicado com as crianças, sensível aos lírios do campo e nunca se casou. Parece até que tinha um caso com João Evangelista”.

Esse cara dá aula! É doutor em antropologia! Mesmo com essa ignorância, como direi?, alastrante!

De novo, Abramovay

Como é que se salta de Mott a Pedro Abramovay, o chefão no Brasil do site de petições Avaaz? Eu explico. Esse petista, ex-secretário nacional de Justiça, é hoje o comandante de uma organização que promove linchamentos online de quem lhe der — e a seu grupo — na telha. Concedeu ontem uma entrevista ao Estadão. Uma entrevista dos tempos modernos: fala o que bem quer, mesmo os maiores absurdos, e não precisa se explicar. Como comandou a petição contra Renan Calheiros, então pode se fingir de promotor do bem público.

O Avaaz recebeu petições, por exemplo, contra os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, mas recusou as petições a favor de ambos. A organização tem bastante dinheiro — tanto que já encomenda pesquisa ao Ibope e conta com braços em Brasília. Ele não conta quanto isso custa. Diz não saber. Ele revelou como funciona a coisa. Leiam (em vermelho)

A Avaaz deleta alguns abaixo-assinados, como um proposto em defesa do pastor Silas Malafaia. Qual o critério para deletar ou bloquear algumas petições?

Abramovay
- O critério mais utilizado, e foi o caso da petição do Malafaia, que se tornou um caso bastante conhecido, é quando alguém da comunidade reclama. Porque a gente vê a Avaaz como um movimento, não é uma rede social, não é um espaço neutro, ela é um movimento que tem princípios. Quando uma parte dessa comunidade diz que essa petição vai contra o princípios do movimento, a gente faz uma pesquisa entre os nossos membros, perguntando, para uma amostra aleatória e por critérios cientificos, se isso representa a vontade dos membros. A gente tem três milhões de membros no Brasil, e pergunta: Vocês acham que essa petição deve continuar ou deve ser retirada? No caso do Malafaia, 77% das pessoas disseram que ela deveria ser retirada, e foi por isso que ela foi retirada. 

Mas se a maioria decidisse que a petição teria que ficar, ela ficaria?

Fica.

O Malafaia, assim como o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), atual presidente da Comissão de Direitos da Câmara, disseram que vão processar vocês por terem apagado a petição deles.

Isso mostra que de fato essas manifestações têm tido um efeito político grande, isso é positivo. Mas acho que qualquer tentativa de se reprimir, judicialmente ou não, movimentos políticos, acho que é muito complicado para a democracia. De qualquer maneira, a Avaaz está muito tranquila, existem regras claras na política da publicação e retirada de petições que estão no site. Do ponto de vista do risco jurídico, a gente não vê nenhum risco nessa forma de conduzir esse movimento (…).


Voltei

Mott é professor de antropologia, e Abramovay, de direito. Vejam que grande democrata é esse rapaz: a “maioria” que conta para saber se alguém será ou não demonizado sem chance de defesa é a maioria formada pela turma, entenderam? São os juízes. Juízes que, como ele revela, não são “neutros”.

Assim, Abramovay, que se quer a voz da sociedade — basta ler a entrevista para constatá-lo —, não quer saber, de fato, o que pensa a maioria, mas o que quer a maioria da minoria que ele representa. Com ela, ele mobiliza a imprensa (como se vê), o Congresso, as redes sociais… Quisesse mesmo ser um reflexo da sociedade, ele permitiria que as petições fluíssem sem censura. As pessoas fariam, então, suas escolhas livremente.

Não com ele! A “democracia” deles guarda incrível semelhança, embora sejam mais sofisticados, com a de Hugo Chávez: fazem o que quer a “maioria”, desde que estejam excluídos, em princípio, os adversários.

Ah, sim: vocês notaram que, até agora, não existem mobilizações contra a presença de João Paulo Cunha e José Genoino na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Juntos, eles somam 17 anos de cadeia…

Ao comentar, peço-lhes, por favor, moderação, equilíbrio, bom senso, tudo o que esses fascistas não têm.






Por Reinaldo Azevedo
Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-tribunal-totalitario-do-sindicalismo-gay-ou-ainda-daqui-a-pouco-os-politicos-terao-de-se-ajoelhar-diante-de-pedro-abramovay-o-juiz-supremo-de-um-tribunal-de-excecao/


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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Batalha espiritual

Por: Thabiti Anyabwile
Título original: Thabiti Anyabwile – Notas Sobre Batalha Espiritual

Parece-me que muitos (a maioria?) dos crentes teologicamente conservadores da Bíblia (incluindo eu) não pensam muito sobre a batalha espiritual. Talvez seja porque há alguns cristãos malucos que parecem falar apenas sobre a batalha espiritual, da maneira como alguns jovens calvinistas malucos apenas falam sobre predestinação e eleição. Ou, talvez seja porque tudo isso soe um pouco fantasmagórico ou assustador. Ou, talvez, não falemos muito sobre isso porque estamos infectados com o ceticismo do pensamento modernista e “científico”, levando-nos a desprezar “todo esse negócio de batalha espiritual”. Eu não sei. Mas eu estou pensando que, se não temos categorias para a batalha espiritual, então provavelmente estamos perdendo a batalha em alguma área de nossa vida cristã.

Mas, qual leitor do Novo Testamento pode duvidar da realidade de nossa luta no mundo espiritual? Apenas um exemplo clássico:

Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. (Ef 6:11-12)...

Nossos inimigos nesta guerra


Nós temos três inimigos nesta guerra: o mundo, a carne e o diabo. Ou, porque estou me sentindo estranhamente poético: Dos meus inimigos há três — Satanás, o mundo, e eu. Estes inimigos eram e são mortais para nós:

Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. (Ef 2:1-3)

Estes três inimigos têm uma particular relação um com outro em sua guerra contra nós. O Diabo, a antiga serpente, é “o príncipe deste mundo” (João 12:31; 14:30, 16:11). Como tal, ele governa o sistema do mundo, em um esforço para esconder a verdade sobre Deus:

Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. (1 Jo 5:19). Nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. (2 Coríntios. 4:4)

O mundo, sob o domínio do maligno, é um sistema de pensamentos, valores, ideias e ações que expressam uma verdadeira hostilidade e rejeição para com Deus e o seu povo. O mundo é irreconciliável com Deus — tanto que a abraçar os caminhos do mundo é unir-se ao mundo em inimizade contra Deus.

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (1 Jo 2:15-17)

Assim, Satanás tem distorcido e sabotado o mundo que Deus fez, inventando um sistema que permanece irremediavelmente hostil para com o Criador. De que maneira o mundo se une para atacar o cristão? Bem, o mundo ataca seduzindo a carne do cristão, os desejos pecaminosos e pensamentos que permanecem no cristão. Deixe-me usar quatro comentários bíblicos sobre a Lei como uma ilustração:

Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo […] Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? (Gl 4:3, 8-9)

No contexto, surpreendentemente, as referências de Paulo para “os princípios básicos do mundo” incluem a própria lei de Deus, que era o nosso professor, supervisionando-nos até a vinda de Cristo (3:23-25). O apóstolo considera a regra da lei de tocar, provar, e celebrar como parte dos princípios básicos do mundo:

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo […] Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças (Col. 2:8, 20)

Satanás governa o mundo para atacar o cristão através de sua carne de muitas maneiras. Pela graça de Deus nós não somos ignorantes dos dispositivos do inimigo. Vou citar três. Primeiro, ele usa o mundo para conspirar com a nossa carne, cegando o cristão com um ascetismo religioso ineficaz:

Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. (Colossenses 2:20-23)

Segundo, Satanás usa o mundo para fortalecer nossa carne a fim de negligenciarmos o viver no/pelo Espírito de Deus:

Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. (Rm 8:3-8)

Terceiro, Satanás usa o mundo para nos cegar para o fato de que a nossa natureza pecaminosa é a raiz do nosso pecado e tentação:

Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. (Tiago 1:13-15)

Como reagir a tudo isso?


Três coisas:

Primeiro, uma vez que nossos próprios desejos e pensamentos são o campo de batalha desta guerra, devemos mortificar a nossa carne.

Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne como se constrangidos a viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (Rm 8:12-14)

A carne morta não pode ser uma carne tentadora.

Em segundo lugar, uma vez que o mundo conspira com a nossa carne contra Deus, devemos cultivar um ódio santo contra o sistema do mundo1.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Rm 12:2)

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele (1 João 2:15)


Terceiro, mortificando constantemente a carne e renovando nossa mente e afeições para com Deus, devemos tomar nossa posição contra o diabo:

Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo […] Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois, firmes… (Ef 6:10-11, 13-14)

Claro, tudo isso só é possível se Cristo Jesus, o Filho de Deus for a nossa Vitória e nossa esperança for naquele que esmagou a cabeça da serpente (Gn 3:15), que trouxe o julgamento contra o mundo e derrotou o seu príncipe (João 12:31), e pelo Seu Espírito que crucifica nossa carne (Rm 8:13; 2 Pedro 1:4).

A estratégia básica para a nossa guerra: Mortificar a carne. Odiar o sistema do mundo. Resistir o diabo.

Luta feliz porque nós todos em Cristo vencemos o mundo pela fé no Filho de Deus (1 João 5:1-5).

Por Thabiti Anyabwile. Copyright © 2012 The Gospel Coalition, Inc. All rights reserved. Website: www.thegospelcoalition.org/blogs/thabitianyabwile/. Original: Notes on spiritual warfare. Tradução: www.voltemosaoevangelho.com. Original: Thabiti Anyabwile – Notas Sobre Batalha Espiritual

Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações supracitadas, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.


1- Acredito que Rm 12:2 deva ser entendido melhor, não como um ódio santo, ou uma revolta quando o texto diz "não vos conformeis com este mundo", este não conformar-se não é uma indignação, mas é uma não adequação. Nós não podemos andar "conforme" o mundo; não podemos agir conforme o mundo; não podemos estar na mesma "fôrma" que o mundo.




Momentos de Reflexão

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domingo, 23 de dezembro de 2012

Onde Jesus esteve entre os 13 e 30 anos?

Por: Augustus Nicodemus

A revista Aventuras na História da Editora Abril publicou uma matéria onde requenta a velha teoria de que Jesus, dos 13 aos 30 anos, viveu em países estrangeiros aprendendo mágica, filosofia e alquimia, antes de se apresentar em Israel como o esperado Messias dos judeus. Vários evangelhos apócrifos são mencionados como fonte para esta especulação.

A matéria é entediante, além de revelar a mais completa ignorância dos estudos bíblicos e arqueológicos relacionados com a vida de Jesus Cristo... É igual às outras publicações sensacionalistas de fim de ano, que se aproveitam do Natal todo ano para interessar os curiosos e ignorantes tecendo teorias absurdas sobre a vida de Jesus.

A razão pela qual os Evangelhos não nos dizem nada sobre Jesus dos 13 aos 30 anos é por que os Evangelhos não são biografias no sentido moderno do termo, onde se conta toda a história da vida do biografado, desde seu nascimento até a sua morte, dando detalhes da sua infância, adolescência, mocidade, vida adulta e velhice. Os Evangelhos, como o nome já diz, foram escritos para evangelizar, isto é, para anunciar as boas novas da salvação mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, o que da vida de Jesus interessa aos Evangelhos é seu nascimento sobrenatural, para estabelecer de saída a sua divindade, seu ministério público a partir dos 30 anos, quando fez sinais e prodígios e ensinou às multidões, e sua morte e ressurreição que são a base da salvação que ele oferece. Não há qualquer interesse biográfico na adolescência e mocidade de Jesus, pois nesta época, viveu e cresceu como um rapaz normal.

Assim mesmo, algumas informações dos Evangelhos canônicos - Mateus, Marcos, Lucas e João - nos deixam reconstruir este tempo da vida de Jesus, que passa sem registro direto. Lemos que quando Jesus começou a fazer milagres e a ensinar em sua própria cidade, Nazaré, os moradores estranharam muito pelo fato de que eles conheciam Jesus desde a infância:
"E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". (Mat 13:54-58 ARA)
Percebe-se pela passagem acima que os moradores da cidade conheciam Jesus e toda a sua família. Se Jesus tivesse passado estes 27 anos fora da cidade, certamente não haveria esta reação.

Além do mais, o ensino de Jesus acerca da Lei, dos mandamentos, do Reino de Deus , as suas parábolas e suas ilustrações são todas tiradas do Judaísmo, das Escrituras do Antigo Testamento e das terras da Palestina. Ele está familiarizado com a agricultura, o cuidado de ovelhas, o mercado, o sistema financeiro e legal da Palestina. Estas coisas teriam sido impossíveis se ele tivesse passado todos estes anos recebendo treinamento teológico e místico em outro país, outra cultura, outra religião. Não há absolutamente nada no ensino de Jesus que tenha se originado na religião egípcia, persa, mesopotâmica do da índia, todas elas politeístas, cheias de deuses e totalmente panteístas. O ensino de Jesus, ao contrário é monoteísta e criacionista.

Estas lendas bobas da sua infância são tiradas de "evangelhos" apócrifos e espúrios, cuja análise já fiz e ofereci aos meus leitores aqui.

É impressionante, todavia, que ainda estão dando importância a este fragmento de um suposto "evangelho da esposa de Jesus" mesmo após autoridades em manuscritologia e papirólogos terem rejeitado sua importância e mesmo sua autenticidade. Escrevi aqui sobre o tal fragmento. No fundo, a razão para todas estas especulações é a rejeição do quadro simples e claro que os Evangelhos nos pintam acerca de Jesus, como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que nasceu, viveu e morreu para que pudéssemos ter o perdão de pecados e a vida eterna.

Augustus Nicodemus Lopes
Pastor presbiteriano (IPB), mestre e doutor em Interpretação Bíblica (África do Sul, Estados Unidos e Holanda), professor de exegese, Bíblia, pregação expositiva no Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da IPB, autor de vários livros.



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